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super exposição

outubro 10, 2017

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Sempre nutri uma simpatia estranha pelas fotografias super expostas. Parece-me belo deixar queimar tudo aquilo que a luz toca demais, num misto de muita abertura, muita sensibilidade e um longo tempo de exposição. O combo que leva embora de uma vez por todas tudo o que não for profundo demais, denso demais… tudo aquilo que não se deixa queimar pela luz.

Parece um pouco com a sensação do sol, que ardia depois de um tempo tocando meu rosto num sábado de manhã muito atípica.

Fazia sol em São Paulo. Era cedo. Ainda assim eu estava lá, irresponsavelmente aberta, sem dúvidas sensível e me expondo a tudo por tempo demais. O sol queimava como se não tivesse medo de excluir da memória (que são fotografias dos momentos) tudo aquilo que não fosse substencialmente importante e denso e profundo.

Ainda lembro da sensação quase insuportável do sol queimando a pele aos poucos, dos olhos cansados lutando para não estarem mais abertos, do frio que foi embora depois do tempo que demorou pra queimar alguns detalhes.

Depois, nada mais em volta existia. Limbo.

Eu flutuava com cada célula que o sol havia queimado. Era como se eu não pudesse sentir que estava ali, mas estava. Era como se eu não sentisse que estava porque os sentidos são limitados e naquele momento, por mais curto ou longo que tenha sido, todos eles só sentiam o que era profundo demais, denso demais pra se deixar queimar.

A parte ruim da super exposição é que você nunca mais consegue trazer de volta o que a luz queimou.

Às vezes é preciso deixar ir e abrir mão dos detalhes.

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ironia

outubro 11, 2015

ironia num mundo que exalta o amor é saber que se pode amar e não deve.

não se deve deixar amar um amor que esteja fora dos manuais de instruções, das inúteis e ingênuas certezas das previsibilidades do que é sabido imprevisível. não se deve alimentar um amor sem rumos, sem expectativas, sem consequências que não sejam seu fim em si mesmo. não se deve sentir-se, viver-se, vi, ver, ser, sem ti.

ironia neste mundo louco que insiste e ainda exalta o amor.

sobre urgências

novembro 2, 2014

sempre gostei muito de escrever. sempre me agradou trabalhar as palavras, seus sentidos e sentimentos, seus significados mais íntimos. acontece que não havia ainda tido a obrigação de escrever, apenas pela obrigação. e torna-se árduo fazer algo que se ama sem espontaneidade.

eis que a obrigação me trouxe a urgência. a urgência de resgatar o que era dar vasão às palavras por si. com a fluidez de que não espera ser lido, com a insensatez de quem não revisa o texto, com a irresponsabilidade de quem usa as palavras para depois esquece-lás… e só.

pensei um pouco na urgência.

a urgência para traduzir os meus últimos dias. ora como necessidade, ora como vontade, ora como fôlego. a urgência é o que tem me feito olhar para frente. e sinto todos os dias a urgência de existir, de voltar a ser.

parece-me que o essencial dessa escrita irresponsável é que ela pode ser urgente, sem mais.
deixo que o seja. que as urgências da vida me afoguem, até que transbordem em realidade.

sinusite

junho 5, 2014

dor de cabeça me dá vontade de escrever. de dar vazão ao latente em mim. forte, às vezes. por ora apenas incômodo. mas sempre aqui, o dia inteiro. aquele peso perto dos olhos me avisando que enxergar não basta, viver não basta. aquele ardor insistente dizendo: escreva!

parece que a vida fica leve quando o físico está pesado. física. qual é o espaço que sobra para a existência inteira quando o corpo pesa? porque quando há peso é porque há massa. e onde há massa não há espaço.

parece que a vida fica leve de vem em quando.

eu gosto mesmo é da escrita sincera. sempre gostei. rasgada, jogada, sem ordem, sem nexo. gosto mesmo é da confusão tão natural ao universo, mas que só se coloca quando o corpo está pesado demais para seguir a ordem.

gosto de escrever com dor de cabeça. porque não preciso pensar para isso. porque a dor me dá certeza de estar viva. e se estou, escrevo. e se escrevo, estou. e enquanto estiver escrevendo não morrerei com a minha dor.

mãe

maio 11, 2014

conheci esta palavra muito cedo. passei muitos anos sem precisar dividir o significado dela com ninguém. por fim, multipliquei.

aprendi a reconstruir, adicionar. ano após ano, inesperadamente, vi surgir novas e incríveis mães no meu caminho. ‘vó’, ‘tias’ – as pessoas diriam – mas não: mães. mães tão maravilhosas quanto aquela que primeiro me ensinou o significado dessa palavra.

olho pra trás, olho pra mim e vejo que tenho um pouquinho de cada uma. cada carinho, cada cuidado, cada exemplo virou um pedacinho de mim. cada demonstração de amor, um alicerce pro meu eu – pro resto da vida.

acho que tenho sorte de ter tantas.

sou uma filha ingrata, no entanto. teimo, não ligo, não agradeço, não dou abraços. (mas deveria!) talvez pelo pesar da distância, talvez pela mágoa do tempo que passa sem que eu possa ser verdadeiramente filha de ninguém.

filha do mundo, eu diria. assim sei que sou. com lindas figuras maternas que aqui e ali me direcionam. nunca desaparecem, nunca desacreditam, nunca abandonam – amam e são amadas e admiradas todos os dias e para sempre.

mães de mim e de uma vontade imensa de ser mãe de alguém.
de uma vontade imensa de, um dia, chegar tão naturalmente a este pureza do amor no âmago da existência humana.

corrijo sem hesitar o título deste post: mães.

 

breve e forte

março 13, 2014

lembrei. foi rápido.
foi por uma fração de segundos, e eu não queria.

doeu.
doeu de uma vez só. um rasgo, um risco.

breve. e forte.
breve e forte como os seus nomes.

lembrei deles.
e dói que eles não estejam aqui.
dói saber que nunca vão estar.

olga e ian – e dex – foi incrível vislumbrar a existência de vocês.
com amor,
mãe.

março 12, 2014

só dói quando eu lembro
só dói quando eu fico só
quando eu volto pra casa andando
quando eu busco teu cheiro de noite

só dói quando eu lembro
só dói quando eu não aguento
quando eu disco teu número
quando, mesmo sem querer, te quero

só dói quando eu lembro
só dói quando eu não quero esquecer
quando eu escuto tuas musicas
quando eu encontro teus detalhes

só dói quando eu lembro
só dói. e passa.